terça-feira, 26 de agosto de 2008

A "arte" da pesquisa

Para mim, a parte mais gratificante de ser um cientista político é fazer pesquisa.
Analisei, para a minha dissertação, a visão dos parlamentares em seus discursos em plenário sobre reforma política. Li 242 discursos destes deputados no momento do Grande Expediente da Câmara e tentei desvendar associações com certas variáveis.
Um parlamentar se destacou, com um número de discursos muito além da distribuição encontrada. Resolvi ir para Brasília conversar com este deputado, para entender o porquê dele ter sido um "outlier".
Abaixo, a íntegra da entrevista que fiz com o deputado Mauro Benevides do PMDB do Ceará sobre reforma política.

Brasília, 06 de novembro de 2007.

Nathalia: Vossa Excelência foi o deputado que mais discursou sobre reforma política no período de 2000 a 2006. Eu gostaria de saber o porquê da sua preocupação com este tema, se é uma questão central no seu mandato e na sua carreira política...
Mauro Benevides: Eu, na composição da Câmara dos Deputados talvez seja aquele que tem o maior número de mandatos. Evidentemente que somando os mandatos que tenho ao de vereador da Câmara Municipal de Fortaleza, que foi o início da minha carreira político-partidária. Fui deputado estadual, eu tive quatro mandatos de deputados estadual. E como deputado estadual eu fui líder da maioria e presidente da Assembléia Legislativa. Depois sai de deputado estadual diretamente para o Senado, num lance surpreendente para a política do meu Estado, porque eu não tinha vivência ao nível nacional. E fui então candidato ao Senado, primeira vez em 1975. Tomei posse no dia 1º de fevereiro e exerci cargo de vice-líder e secretário da MESA. Depois fui candidato a governador e perdi a eleição para governador, e, durante quatro anos, fiquei sem mandato. Nesse espaço de tempo, eu exerci a presidência do banco do Nordeste, que é o instrumento de colaboração mais expressiva do desenvolvimento daquela faixa do território brasileiro. Me afastei do banco para ser novamente candidato ao Senado. Fiz uma campanha bem mais fácil porque o nome já estava projetado e me elegi pela segunda vez senador. Então, um mandato de senador são duas legislaturas, aí compute-se quatro legislaturas. E na Câmara Federal, estou no terceiro mandato na Câmara Federal.
Na minha vida pública enfrentei problemas delicados, como na presidência do Senado, o impeachment do presidente Collor. Naquela ocasião era o presidente do Senado. Exerci, em seguida, a liderança da maioria e tive uma atuação relativamente destacada ate por uma condição hierárquica na condução dos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte. Nosso presidente era Ulysses Guimarães e o 1º vice-presidente era alguém que você não conhece, conhece? O primeiro vice-presidente da Constituinte, não?
O senhor...
Mauro Benevides: Você não conhece não, né...O presidente era o Ulysses, você sabe... E o primeiro vice-presidente a substituir o Ulysses, quem era, você estudante de Ciência Política? (Risos) O primeiro vice-presidente era o seu entrevistado de hoje. Então se você consultar a Constituição, você vai ver que o segundo nome da Constituição é Mauro Benevides.(mostrando a Constituição e seu nome) O deputado João Almeida também foi muito importante, você podia entrevistar ele (sic). Mas isso que você me falou...eu estou surpreso, eu sou mesmo o deputado que mais discursa? Eu não sabia, eu disputo sempre com o meu colega do Ceará, mas no Ceará eu ganho.
Vossa Excelência também se refere nos seus discursos ao financiamento público de campanhas como um item importante da reforma política...
Mauro Benevides: Financiamento público, só majoritário. É difícil... se um governador fizer um comício junto com um deputado, quem vai pagar? O deputado que tem menos dinheiro, ou o governador que recebe doações do Estado? Então, essa é uma questão complicada, porque não tem como, com essa lei. Então...os principais temas são o financiamento público de campanha, a fidelidade partidária e as federações partidárias... Por que no sistema uruguaio deu certo e no Brasil não vai dar? É isso que eu queria saber. Preciso entender...
Nos seus discursos o senhor cita também a lista fechada...
Mauro Benevides: Eu nem estou falando da lista fechada porque, você sabe, a Casa não quis, ela já foi rejeitada, então, por isso eu nem vou me pronunciar sobre ela. Foi decisão da Casa, não tem nem mais porque falar disso, ela foi rejeitada. Esse foi um tema polêmico, muita gente não quis porque ia acabar com uma caciquização dos partidos. Os nomes da lista, os primeiros, iam ser dos que já tem um mandato. Então, por isso...
Sobre a decisão do STJ de atrelar os mandatos aos partidos, qual a sua opinião?
Mauro Benevides: O TSE, num primeiro momento, interpretou que os mandatos são dos partidos. Mas ai para não prejudicar os deputados que saíram, ai deu como limite a data de 27 de março, você deve estar acompanhando né, deu essa data como limite para que os deputados que saíram antes não perdessem o mandato. Depois, pro cargos majoritários, deu como limite o dia 16 de outubro. O STJ supriu a carência do Congresso, a negligência. Alguns dizem que o que aconteceu foi uma usurpação do poder do legislativo, mas eu, pode colocar ai, que o deputado Mauro Benevides disse que foi negligência, desídia e omissão do Congresso. Eles resolveram, agora, usar o projeto do senador Marco Maciel, com fidelidade de três anos. O que mais você quer saber?
Qual é a sua opinião sobre o voto distrital?
Mauro Benevides: Não há como! Nem o distrital, nem o distrital misto. É constitucional. Precisa de 308 votos, é inviável. Você viu, para a CPMF, conseguiram 330, mas o esforço que deu...Não tem como, nem o distrital nem o distrital misto. O Brasil é feito de votos nos estados. Isso ai são os deputados que só conseguem voto em poucos lugares, porque fica mais fácil de dar alguma coisa lá no lugar, no município. Eu não preciso disso, eu fui votado em 181 dos 184 municípios do meu estado. E foram votos espontâneos, eu não fiz campanha. Os meus discursos na TV Câmara ajudaram. Agora a TV Câmara chega a todo lugar, com a parabólica, a TV Câmara atinge todo o território. Minha votação foi dispersa, fui votado em 181 dos 184 discursos.
Na sua opinião, o que é mais importante: poucos partidos para favorecer a governabilidade ou mais partidos para favorecer uma maior representação de segmentos da sociedade?
Mauro Benevides: O nosso sistema é o que? Como é o sistema político? O sistema de partidos do Brasil, como é? Como funciona? É multipartidário, você não quis responder... É diferente do pluripartidário. Vou citar um grande cientista político que diz, você conhece, Paulo Bonavides, não é Benevides não (risos). Ele diz que o Brasil tem um sistema multipartidário que são mais ou menos 30 partidos. O sistema pluripartidário tem 12 partidos, com esse número da pra ter todas as correntes ideológicas representadas. O Brasil com 12 partidos teria as correntes representadas, mas esse número de 30 vem da fragmentação, do fracionamento das siglas.
Mas para a construção de alianças, para votar certas matérias, como o senhor disse antes, seria mais fácil um menor número de partidos...
Para isso a aglutinação é mais importante, para a governabilidade.
À que Vossa Excelência atribui a demora na colocação em pauta dos projetos de reforma política? Mauro Benevides: Os interesses. Os interesses regionais. As divergências entre partidos, mas o interesse regional superou o global, o interesse pessoal foi maior do que o global, isso dificultou. Já está bom para você, quer que eu fale mais alguma coisa, está gravando tudo direitinho?
Está ótimo. Muito obrigada, deputado.
Espero que tenha ajudado.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Agora é sério...

Resolvi fazer este blog, mesmo não sendo muito fã de mecanismos internéticos usurpadores da privacidade, leia-se orkut e afins (os outros recursos técnicos da net contam com meu total apoio e sou muito grata a eles, leia-se Scielo -a melhor invenção, afinal uma dissertação de mestrado feita em lugares dos mais variados era impensável alguns anos atrás).
Fiz o blog para dividir (se é que alguém vai ler isso) e divulgar os resultados da minha trajetória acadêmica. Estou terminando (UFA!!!) minha dissertação de mestrado e acho importante divulgar meu trabalho. Gosto de fazer pesquisa e, por meio desse veículo, "vou estar mostrando" um pouquinho das coisas que estou estudando.
Aos poucos, as pessoas vão entender que CIENTISTA POLÍTICO NÃO É POLÍTICO!

Cientista político não é político...começando do começo...

Aos 18 anos passei no vestibular para Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB).
Que orgulho da mamãe...mas..."o que você vai fazer mesmo? CiênciaS PolíticaS!?" Nãaaaooooooo !!! Não é no plural!
"Ah, vc vai ser política???"Acho que não tenho "carisma"!
"Entao, pra que serve isso?"
7 anos depois, ainda me pergunto! Prestes a terminar o mestrado "nisso"(é...não conformada em fazer apenas a graduação, estou me especializando "nisso"...), ainda tenho alguns questionamentos sobre o que fazer com tanto conhecimento (?), pois a "sabedoria"carrega consigo responsabilidades...estou preparada?
Outro dia, uma menina de 16/17 anos conhecida do meu primo estava em dúvida sobre que carreira seguir, que opção marcar no vestibular.
Ela quis saber o que fazia um cientista político/social. Entre questões específicas sobre áreas de atuação e o trabalho em si, escrevi para ela o seguinte:
Para trabalhar na área de ciências sociais, é necessário ser uma pessoa questionadora, observadora e que tenha vontade de "decifrar"o mundo em que vivemos, o porquê dos atores sociais (Governo, Estado, Igreja, Sociedade Civil, políticos....) agirem da maneira que agem.
Fiquei feliz pq deu certo, a menina se decidiu: consegui trazer mais um pra "isso"!!!!!