sexta-feira, 10 de abril de 2009

Democracia na América/Democracia na Moldávia

Tudo que observei sobre a cidade de Cambridge, MA valeu para a semana passada. Essa semana conheci uma outra parte da cidade. Geograficamente, é o mesmo local, entretanto, bastaram os termômetros marcarem a elevação, nada sutil, da temperatura para cidade ganhar uma nova cara. De 7ºC para 17ºC!!!! Agora sim a primavera deve começar.
Brotaram pessoas nas ruas. Onde será que elas estavam antes? Certamente escondidas em algum café/livraria ou Starbucks. Agora todas andam pelas ruas, num clima descontraído. Impressionante! O ar sisudo das pessoas deu lugar a uma festividade que não achei que fosse encontrar por aqui.

Os artistas que cantavam no metrô, subiram!! A cidade está mais alegre, mais musical...As tribos apareceram, a do hiphop, uns punks, e os intelectuais, obviamente, continuam. Os restaurantes e bares que antes eram indoor, agora, meio timidamente, já começam a colocar mesinhas do lado de fora. A sorveteria J.P. Licks está completamente outdoor.

Cada dia descubro algo novo também. Na livraria Harvard Book Store, há palestras gratuitas sobre diversos temas, quase todos os dias. Infelizmente, meu schedule não casou com nenhuma de meu interesse. Os museus também são grátis aos sábados, mas a maioria está trocando a coleção, por enquanto.

O mais interessante, contudo, é o engajamento político que a cidade demonstrou. Pessoas do GreenPeace, Anistia Internacional (e outras ONGs) panfletando, e o que me chamou muito a atenção, uma manifestação, discreta porém enfática, reivindicando democracia na Moldávia.

Conheci umas meninas de lá e elas me explicaram o porquê disso. Vou tentar resumir.

No dia 5 de Abril, 2,5 milhões de eleitores foram chamados a eleger os 101 membros do Parlamento de um dos menores países da Europa, a Moldávia, que tem a a Romênia e a Ucrânia como países limítrofes. O resultado da contagem original, na qual o governista Partido Comunista da Moldávia venceu com cerca de 50% dos votos, foi contestado por grande parte da população que não apoia o comunismo. Segundo uma das moças com quem conversei, as eleições foram marcadas por fraudes, um exemplo disto seria o seu nome ter sido elencado como uma das pessoas votantes, já que ela reside nos EUA há um longo período.

Vladimir Voronin, presidente do país, ordenou a recontagem depois de violentos protestos terem deixado mais de 90 pessoas feridas. Contudo, foi revelado que não houve nenhuma irregularidade no pleito. Chegou-se aos mesmos números da primeira contagem, que assegurou aos comunistas 60 dos 101 assentos no Parlamento.

Mesmo que estes números sejam verdadeiros, representam uma pequena margem para se governar um país sobre os preceitos de um sistema de governo que parece, segundo o que as manifestações mostraram, não possuir muita legitimidade entre uma grande parte da população.

Fechando os parênteses.

Estou começando a gostar mais de Cambridge, mais especificamente Harvard Square. Todo esse ativismo político me faz lembrar de uma importante obra que explica o espírito cívico dos norte-americanos, com base na origem da constituição dos Estados Unidos como país. O pensador francês Alexis de Tocqueville, na obra Democracia na América, mostrou a estreita relação entre democracia e existência de formas associativas livres e autogovernadas. Deste estudo, começou a ser largamente utilizado o termo "associativismo" em diversos outros trabalhos sobre democracia.
O associativismo, em larga medida, é entendido como o processo de reunião, de forma regular, mas não necessariamente contínua, para tratar de demandas comuns. O alvo é a busca de um consenso sobre divergência.

A democracia ideal pressupõe a participação pública e o espírito cívico dos cidadãos (e o associativismo faz parte deste espírito).
Por isso, por mais que se tente deslegitimar a dmeocracia americana por conta da polêmica eleição de George Bush e do "complicadíssimo" sistema de votação, em que se pese a perspectiva associativista, estamos em um país altamente democrático.
Isso é minha opinião, se alguém discorda, sinta-se à vontade para mostrar outro ponto de vista, afinal, estou nos EUA e não na Moldávia.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Cambridge, Massachusetts






Quero apresentar a cidade sob a minha perspectiva. Pelo pouco que pude observar até agora, Cambridge é uma cidade interessante, pois é ao mesmo tempo cosmopolita (inúmeros estudantes estrangeiros, pessoas com alto nivel de escolaridade e de várias partes do mundo e também alguns mendigos), com um ar provinciano. Muitas casas em vez de edifícios, ruas tranquilas, pouco trânsito, metrô não muito cheio, pessoas com um ar mais despreocupado, especialmente se comparadas aos novaiorquinos.

Não conheço a cidade homômina da Inglaterra, aliás AINDA não conheço este país (dois incidentes seguidos me fizeram perder a oportunidade), porém, penso que a arquitetura local remeta à da cidade inglesa, já que estamos na Nova Inglaterra.

As faculdades de Harvard apresentam alguns contrastes. Uma parte mais tradicional e outra bem moderna, mesmo que mantendo o padrão ingles, e nisto se inclui o prédio -na verdade dois, um em cada lado da rua- do Department of Government (...is one of the leading political science communities in the United States. Our faculty represent a broad spectrum of backgrounds, methodologies and approaches. We have strength in teaching and research not only in the four fields of political science—American politics, political theory, comparative politics, and international relations—but also in the areas of formal theory, methodology, and political economy.)

No geral, as cidades marcadas pela presença de centros universitários são mais acolhedoras, além de bastante diversificadas no que diz respeito às tribos que interagem umas com as outras. Aqui, em contraste, não se vê essa mutiplicidade de estilos. Evidente que estou falando do ponto de vista estético,isto é, da maneira como se vestem, porque não tenho mais dados sobre quais são os grupos que convivem na universidade.
Não sou afeita a generalizações, inclusive sou relativista ao extremo; contudo, o povo daqui parece ser bastante esnobe. Mas, eles podem! Estudam em Harvard, a melhor (e mais cara) universidade do mundo!

É inegável que a cidade tem um atmosfera intelectual, eu diria até contagiante. Nos cafés, sempre há muitas pessoas estudando, não só com seus laptops, mas com -pasmem!- livros. Falando nisso, as livrarias daqui não perdem em nada para as do Brasil. A Harvard Book Store tem a vantagem de ter uma grande sessão de sebo em seu subsolo, tirando isso, não tem tantas opções de livro quanto pensei que teria. A Harvard Coop, que é da editora de Harvard, é bem maior (3 andares), mas não é tão grande quanto a Cultura de São Paulo /Av.Paulista. A sessão de Ciência Política deixou a desejar, se comparar com a Saraiva Mega Store do Barra Shopping, por exemplo. Tinham os clássicos, obviamente, e algumas outras obras, até que não só restrita aos autores norte-americanos. Inclusive, dois autores brasileiros na sessão: Mangabeira Unger, professor daqui de Harvard (alguns não o consideram tão expoente da CP brasileira) e um livo organizado por, entre outros, Leonardo Avritzer da UFMG. Na sessão de ficção, advinhem: Paulo Coelho. Vou me abster de comentar este fato.

Um mecanismo muito interessante no site dessa livraria é que todo os cursos da universidade estão relacionados e, selecionando sua área e código da matéria, vem a lista de livros pedidos para a disciplina e os preços (até de usados, se tiver) e você pode comprar tudo de uma vez, online.

A cidade tem todas as facilidades para quem quer realmente estudar. Com várias bibliotecas e cafés/livrarias. E olha que nem fui ainda aos museus e galerias de arte, e são vários. Tenho muita coisa para explorar!!!!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Living in America

Atendendo à pedidos, ou melhor, pedido, resolvi escrever mais por aqui.
Estou vivendo por um tempo com minha irmã nesse frio (não para os nativos, para mim) do nordeste dos Estados Unidos.
43F (6C) é tranquilo aqui na Nova Inglaterra (como é conhecida a região dos EUA onde fica, entre outros, o Estado de Massachusetts).
Mas, não posso reclamar, é o preço da minha escolha. Resolvi passar um tempo por aqui e quem sabe tentar o Doutorado neste país. Tudo vai depender da minha adaptação.
Percebi que o que me serviu de inspiração para começar este blog, isto é, tentar esclarecer a qual é a real função da existência de um cientista politico (mais precisamente um estudante de pós-graduação), não faz muito sentido na América do Norte.
É notório que todos estão perfeitamente acostumados a ouvir "political science", ao contrário do que acontece em nosso país quando me reporto à ciência política.
Um exemplo muito curioso se dá no curso que estou fazendo. É um curso preparatório para o chamado GRE (Graduate Record Examination), espécie de vestibular para quem quer fazer mestrado ou, o meu caso, PhD nos EUA. O fato curiosíssimo, ou talvez nem tanto, é que na minha turma haja 5 alunos, e destes, 4 querem aplicar para POLITICAL SCIENCE.
Não existe clima de animosidade na turma por isso, talvez por nao serem meus concorrentes diretos, pois vão tentar para lugares diferentes do meu.
O mais interessante também é a globalização desse interesse. Tirando a menina de Bangladesh que quer fazer mestrado em patologia neurológica (pelo que entendi), a representação dos aspirantes a ciência politica está bem espalhada pelo mundo. Um é da Líbia, outro de Taiwan, a outra da Espanha e eu do Brasil (África, Ásia, Europa, América).
Isso pode ser prova também do quanto a ciência política nos Estados Unidos é procurada. Algo bastante distante do que acontece em nosso país.

Ps: Minha irmã à esquerda e eu à direita na foto